Ele é um cara de sorte.
Aos vinte e tantos anos, chegou onde poucos (num universo de bilhões) sonhariam em chegar: um trabalho, uma formação, um teto (não é seu, mas lhe serve), algumas perspectivas...mas, como para todo ser humano, isso tudo não é suficiente.
Todo ser pensante se depara com isto ao menos uma vez na vida: o céu sai dos seus pés, e o chão ressurge, para aparar sua queda abrupta; um dia, ele se vê no paraíso e, no outro, em pleno inferno.
O que houve? Há ao menos dois lados da história. Mas essa não é a história de hoje, mas sim a história posterior: o que restou do cara de sorte.
Ele hoje passeia serelepe pelo purgatório como se fosse um morador nascido e criado lá, a procura do próximo passo. Mas estes próximos passos são tão lentos que, se ele os percebe, logo se desanima. É preciso dar pequenos passos em várias direções para que ele não perceba que trilha um longo e árduo caminho: o caminho da vida.
Este cara, que já se sentiu de sorte, tenta fazer (ou aproximar) a sorte de quem está por perto, na tentativa de ver um sorriso alheio provocar o seu próprio; é um paradoxo, talvez, mas lembra uma célebre frase cinematográfica: "quem quer rir, tem que fazer rir". E ele a pratica naturalmente, a frase é posterior ao legado.
Todo dia um pensamento vem a sua mente: há um tempo atrás, era uma assombração que lhe pairava; hoje, é um fio condutor de coisa alguma. É a lembrança de alguém que lhe deixou e significava muito. Hoje esse cara quer um novo verbete para este significado.
"A sorte é amiga da competência", dizem; e ele tenta ser, ao menos, competente, na esperança de melhor sorte; na esperança de fazer jus à sorte que tem.
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